Jornal Tribuna Sisaleira

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Ganha força a ideia de tratamento precoce contra a Covid-19

Ganha força a ideia de tratamento precoce contra a Covid-19

  • Defendida pelo governo, a intervenção em fase inicial, que inclui a cloroquina, cresceu com a criação de um grupo de apoiadores do novo protocolo
  • A recente chancela do Ministério da Saúde para o tratamento precoce do novo coronavírus, logo nos primeiros sinais da doença, foi uma das decisões mais polêmicas na história da pandemia no país. Em especial pela escolha de remédios não indicados originalmente para a infeção — a azitromicina, um anti-inflamatório, e a conhecidíssima cloroquina, a droga da discórdia, antiviral usado em casos de lúpus, malária e outras doenças autoimunes. No último dia 7, o presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar ter “se sentido perfeitamente bem” ao tomar as medicações diante da suspeita de Covid-19, antes mesmo do resultado positivo. O protocolo médico ganhou adeptos (e acaloradas discussões) com a criação de um conselho científico com nomes de peso que defende a ação terapêutica.
  • Capitaneado pelo empresário e empreendedor social Carlos Wizard Martins, o grupo reúne cerca de 10 000 profissionais dos mais variados estados e hospitais brasileiros, imbuídos nos estudos e na divulgação do procedimento por todo o país. As diretrizes da equipe rapidamente viraram fenômeno na internet. Com o nome “Covid tem tratamento sim”, a plataforma virtual que os representa teve 4 milhões de acessos em apenas três semanas de funcionamento. Em maio, Wizard Martins chegou a ocupar a função de conselheiro informal no Ministério da Saúde, mas deixou a pasta depois de poucos e ruidosos dias. “O tratamento, infelizmente, se tornou ideológico e isso tem que acabar”, diz ele. “Perdi um sobrinho de 48 anos com Covid-19. Ele chegou a procurar auxílio médico no início dos sintomas e o mandaram para casa. Pouco tempo depois a doença se agravou de forma drástica. As pessoas não podem colocar aspectos políticos acima da vida”.
  • “Fui o primeiro infectado na família, em março. Sentia uma dor tão forte que não dava para tocar no corpo. Fui internado. Em seguida foi minha mulher, Cristiane, que nunca sentiu sintoma algum. Meu irmão foi o terceiro e teve poucos sinais. Eles só foram atrás de ajuda médica depois de acompanharem o meu caso. Fomos medicados com três remédios, incluindo a cloroquina, logo no início. Deu certo.”
    O tratamento aos primeiros sinais não seria alvo de celeuma não fosse ele ancorado na cloroquina. Mas é. Aclamado quase por unanimidade no início da pandemia, o medicamento recebeu o aval da FDA, a rigorosa agência americana de aprovação de substâncias, para tratar a Covid-19 em caráter emergencial. Em junho, a autorização foi suspensa com a justificativa de que “o medicamento apresenta riscos, sem nenhum benefício aparente”. Em seguida, a Organização Mundial da Saúde interrompeu o uso da cloroquina em seus testes, depois de levantamentos minuciosos não demonstrarem sucesso garantido. E, no entanto, caminho oposto foi traçado pela prestigiosa revista científica The Lancet. Em maio, o periódico divulgou um trabalho que refutou os benefícios para a Covid-19. Um mês depois tirou a pesquisa do ar, a pedido dos autores, sob o argumento de que eles não podiam mais “garantir a veracidade das fontes de dados primárias”. A medicação ganhou antipatia de parcelas de cidadãos à esquerda ao ser defendida ardorosamente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou ter tomado o remédio profilaticamente, como faria depois Bolsonaro. E, para bagunçar o coreto, convém lembrar que a cloroquina foi amplamente defendida por Nicolás Maduro na Venezuela. O melhor a fazer, portanto, como recomendam os médicos, é subtraí-la de toda conotação partidária. A cloroquina não deve ser levada ao palanque. No Brasil, cerca de 3 milhões de comprimidos foram distribuídos no país, fabricados pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército.

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